Nordeste Washing - o pinkwashing ou greenwashing do Nordeste.

Nordeste Washing, a versão greenwashing do Nordeste

O termo “Nordeste Washing”… (pera ainda*, o que é isso?)

Até hoje, tinham zero resultados no Google sobre isso.

Trazer um termo “pop” e em “inglês” tem um objetivo.

Quero resumir e descrever uma prática que se assemelha ao greenwashing, mas em relação à região nordeste do Brasil.

Se a “invenção do Nordeste” é uma opção, que classifiquemos e tenhamos uma outra forma de dizer isso que é do mesmo espírito do greenwashing, pinkwashing ou pink money. A diferença é que é do Nordeste. Vamos aprofundar?

*pera ainda e não pera aí é uma expressão que significa”segura”ou peraí.

Atualmente, vemos algumas ações na mídia para a região ou sobre o Nordeste. Elas têm crescido. Em minhas duas pesquisas acadêmicas sobre Nordeste/cordel, e também vivendo e pesquisando o mercado de comunicação hoje, pude entender melhor isso e como se desenrola.

Assim como o greenwashing envolve ações que aparentam ser ambientalmente responsáveis, mas na realidade não o são, o Nordeste Washing refere-se a iniciativas que parecem estar comprometidas com a causa nordestina, mas que, na prática, não contribuem de forma significativa para a região ou para a inclusão dos nordestinos.

Um exemplo desse fenômeno pode ser observado quando algumas empresas ou marcas fazem campanhas publicitárias que destacam o Nordeste e suas culturas uma vez por ano, geralmente durante festas populares como o São João ou o Carnaval.

Essas campanhas podem incluir elementos típicos da região, como músicas, danças, trajes e até mesmo o sotaque característico.

No entanto, durante o restante do ano, essas empresas raramente têm envolvimento real com a região, sem investimentos, ações sociais ou parcerias de longo prazo com instituições locais.

A consequência dessa prática para a imagem das marcas e empresas de comunicação pode ser negativa.

Embora as campanhas sazonais de Nordeste Washing possam atrair a atenção momentânea do público e gerar algum buzz nas redes sociais, muitas vezes elas são percebidas como oportunismo e falta de comprometimento genuíno com a região.

Crítica e foco em novas gerações

A audiência está cada vez mais consciente e crítica em relação a ações de marketing vazias, e essa falta de autenticidade pode levar a uma perda de confiança e credibilidade por parte do público.

É por isso que hoje em dia se discute o storydoing e não apenas o storytelling.

Em outras palavras, as pessoas e, em especial, as novas gerações, buscam conexão com marcas e empresas que praticam o que falam. E não só aquelas marcas que contam histórias.

A maioria da geração Z, por exemplo, apoia movimentos sociais como Black Lives Matter, direitos transgêneros e feminismo.

Parte da mentalidade ligada à diversidade está em sua origem e também é somada com a convivência com pessoas diferentes (dados do Insider Intelligence 2022).

“A inclusão é cada vez mais esperada, especialmente pela geração Z e pelo público da geração millennial”(Jill Estorino, presidente e diretora administrativa da Disney Parks International na The Walt Disney Co).

Pensando nisso, a prática do Nordeste Washing também pode afetar negativamente as relações entre empresas e a população nordestina.

E vale recordar que o Nordeste é grande diverso. Ele concentra, aproximadamente 30% da população do país em cerca de 20% da extensão territorial brasileira.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2018), a Região tem cerca de 56,7 milhões de habitantes, distribuídos ao longo de 1,6 milhão de km2.

Em 2023, é a maior projeção de crescimento do PIB Nacional.

É da região que vem alto nível de educação, também. Apesar da desigualdade dos 9 estados do Nordeste entre si, é dos nordestinos que se têm alguns dos maiores índices de educação brasileiros (e, por consequência, senso crítico).

Para as marcas e empresas de comunicação, é importante entender que ações vazias e oportunísticas podem ter um impacto negativo em sua reputação e resultados financeiros a longo prazo. Que descaracterizam a região Nordeste,  considerando-a um bloco homogêneo, sem valorizar a cultura ou suas diferenças entre estados – mas querendo utilizar seus cursos para monetização. Que inventam um jeito do Nordeste que é da mentalidade sudestina – mas que nem sempre é o Nordeste atual do próprio Nordestino (como cita Durval Albuquerque).

Em um mundo cada vez mais conectado e consciente, a autenticidade e o comprometimento genuíno com as causas e as regiões são fundamentais para construir uma imagem positiva e sustentável no mercado.

É essencial que as empresas evitem práticas de Nordeste Washing e busquem formas reais de contribuir para o desenvolvimento e a inclusão da região nordeste e de pessoas nordestinas.

O Nordeste não é só São João, praia e cuscuz. O nordeste é isso também, mas vai além.A comunicação e o marketing devem ser baseados na sinceridade e na construção de relações de confiança a longo prazo com os consumidores, e o Nordeste Washing vai na contramão desse princípio.

E há senso crítico, estudos e ocupação nas melhores universidades do Brasil. Um grupo de pessoas qualificadas, educadas e nordestinas está de olho. O Nordeste existe. Então as marcas deveriam estar, também, com ele nas suas estratégias. Mas do jeito mais autêntico possível.

Extra: quem sou eu na fila do cuscuz?

Além de atuar e pesquisar o mercado de comunicação e dados (graduação em marketing, pós em Digital Business), eu também já publiquei pesquisas de cultura brasileira. Meus trabalhos acadêmicos foram: “O sistema do cordel: a literatura da comunicação” e “O cordel como sistema cultural de comunicação”. Meu Linkedin.

Sobre o autor

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